Como meditar (parte II) PDF Imprimir E-mail
Escrito por Jefferson Flausino   
Qui, 19 de Agosto de 2010 14:23

O aspecto transformador da meditação

Recolhimento sensorial e concentração


Continuando o artigo anterior sobre o tema meditação, este, tem por finalidade esclarecer os dois primeiros mecanismos para a prática correta desta técnica. Lembremo-nos primeiramente que meditação é a supressão da instabilidade da consciência, é interromper as oscilações nocivas das ondas cerebrais e acessar um estado de consciência expandido que nos conduza ao entendimento lúcido e sem distorções de nossa própria consciência, uma vez lá, seguramente poderemos desfrutar de uma profunda serenidade existencial, a nos trazer paz e harmonia com todas as coisas.

Começo ensinando-lhes que ao praticarmos a meditação precisamos primeiro controlar e recolher nossa sensorialidade. Vamos então, à técnica propriamente dita. Sente-se em qualquer posição firme e agradável, com as costas eretas e queixo paralelo ao solo, num lugar tranqüilo e reservado. Uma música suave e incenso natural podem melhorar a qualidade de seu recolhimento. Uma vez adequado o cenário de sua prática, comece a perceber e se concentrar em seus cinco sentidos naturais, do mais denso ao mais sutil. O primeiro; Tato. Sinta a temperatura ambiente por todo seu corpo, a parte de fora e de dentro de suas vestimentas, sinta tua postura, o prolongamento da coluna, o ajuste e apoios de seus membros, seus pés e mãos... Sinta o tato interno de seus músculos e articulações se ajustando a gravidade e quietude, então, quando sua posição como um todo for percebida e aquietada, passe ao segundo sentido; Visão. Repouse seu olhar cerca de quarenta e cinco graus a sua frente deixando os olhos entre abertos, concentre-se na imagem fragmentada a sua frente até saturar a visão, provavelmente um grande clarão ou ofuscamento da visão surgirá em algum momento, quando isso ocorrer, feche suavemente os olhos. Passe então ao terceiro sentido; Olfato. Comece observando a respiração, como ela se processa, se superficialmente ou profundamente, sinta o ar fresco penetrando suas vias aéreas, alvéolos e pulmões, depois, o ar quente saindo pelas narinas promovendo descontração física e tranqüilidade cardíaca; sinta o perfume do ar e agregue ritmo em sua respiração, inspirando em um determinado tempo e expirando duas ou três vezes esse tempo, ou seja, se inspirar em quatro segundos, solte o ar demoradamente em oito ou doze segundos. Faça isso até sentir e irradiar um profundo estado de quietude, descontração e bem-estar. Passe então ao quarto sentido; Paladar. Mova sutilmente a língua pelo interior de sua boca, procure perceber todos os gostos, o doce, o amargo, o azedo e o salgado, concentre-se nisso até saturar a sensibilidade do paladar, então, deixe a saliva descer suavemente pela garganta e procure sentir até onde você percebe isso ocorrendo, é muito interessante. Então, passe ao último sentido; Audição. Procure perceber todos os sons a tua volta, tente identifica-los, separá-los e aprofundar cada vez mais sua percepção, concentre-se neles até saturar a audição, até abstraí-la. Pronto, você está preparado para a etapa seguinte e mais difícil, e nesta, teu cérebro irá naturalmente se desdobrar para o próximo estágio, a concentração. Você pode utilizar qualquer estímulo para prender a atenção mental e gerar a concentração, precisamos de recursos abstratos visuais para “enganarmos” a mente que devaneia. Nossa mente infelizmente é um tanto preguiçosa, ela é indisciplinada e influenciável, ela é como uma criança, que precisamos estar sempre dizendo: - Vamos lá, em frente, não pare, você consegue... A mente precisa de treinamento, de disciplina, ela não possui as virtudes da paciência e perseverança. Por isso, a necessidade de recursos abstratos para prendermos a mente em seu próprio universo ilusório, e então, controlá-la. Eu sugiro como técnica primária de estímulo à concentração que você retorne a atenção ao sentido do olfato e concentre-se na própria respiração. Mantenha o ritmo 1 x 2, ou seja, inspire num determinado tempo de sua escolha e solte o ar demoradamente duas vezes esse tempo. É importante que sua respiração seja profunda, consciente e confortável, jamais torne sua respiração ofegante ou desagradável, Dessa maneira, respirando correta e profundamente, a cada expiração você irá descontrair mais e melhor, permitindo-se penetrar profundamente em sua própria consciência. Quanto mais profundo for o respiratório, mais profundamente se penetra na consciência. Agora, junto ao respiratório agreguemos outro estímulo de caráter mental, concentre-se em um símbolo, em uma figura geométrica, em uma cor, no sol, na lua, na chama de uma tocha ou em qualquer forma fixa que possa prender sua atenção. Mantenha a constância na prática, você pode experimentar vários estímulos mentais, porém, é importante que eleja apenas um, como instrumento de sua prática diária de meditação para que o exercício surta efeito. No início, provavelmente você não conseguirá focar com qualidade, irá logo desfocar-se, porém não desanime, continue firme, pois com o tempo e disciplina apropriada, você irá concentrar-se mais e desfocar menos, e então, com perseverança e paciência, você não irá mais desfocar e certamente desenvolverá a concentração linear. Você estará pronto para meditar com qualidade na forma original da técnica. Você talvez não perceberá que acessou a meditação, porque o cérebro não identifica racionalmente esse processo, o que ele faz é desdobrar-se naturalmente para o estágio de intuição linear ou meditação após uma prática de concentração perfeita. Você apenas saberá que algo muito especial acontece, desfrutando de um fantástico estado de consciência que lhe brindará o êxtase profundo do autoconhecimento, mas não poderá teorizá-lo racionalmente em palavras e intenções, se o fizer, não terá alcançado a meta real da meditação. É sabido que o objetivo central da meditação é gerar paz mental e serenidade existencial, é ter o perfeito controle sobre suas emoções, é gozar da hiperconsciência em perfeita harmonia com o universo. Mas, ainda sim, isso que vos digo é apenas uma tênue especulação da meta em si. Claro que a meta é importante, mas, o que realmente importa é o Caminho, a Prática constante e desinteressada, aqui e agora! Querer apenas a iluminação, é não atingir a iluminação; então, três lições importantes: Primeira: Pratique... Segunda: Pratique. E terceira: Pratique mais ainda!

Para sair com segurança de sua prática meditativa, comece a retornar à consciência do corpo físico através dos cinco sentidos, agora, do mais sutil para o mais denso. Ouvindo melhor os sons a sua volta, inspirando profundamente sentindo o perfume do ar, movendo a língua sentindo o gosto, abrindo os olhos e enxergando, movendo o corpo todo sentindo o tato, e espreguiçando-se bastante devolvendo força e vitalidade aos músculos. Pronto, você teve um ótimo treinamento de introdução à meditação, e saiba que somente a constância de sua prática é que irá definir a qualidade com que você chegará aos patamares elevados do autoconhecimento. O tempo para praticar a meditação é você quem define, comece com cerca de cinco minutos diários, e à medida que você sinta a necessidade vá gradativamente aumentando o tempo de sua permanência na prática.

 

Espero que este pequeno artigo possa ter lhe ajudado há compreender um pouco melhor o mecanismo da meditação.

 

Boa prática.

 

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Texto inspirado na observação e prática em Raja Yoga

Foto: Marcos Barbosa Ferreira

 

 

Última atualização em Qui, 19 de Agosto de 2010 15:11